domingo, 27 de março de 2005

O Jantar

Ela novamente olhou para o relógio e viu que já marcava 12h15. Furiosa resolveu esperar somente mais dez minutos, pois todos sabiam o quanto ela não gostava de ficar esperando ninguém para o almoço.

Carnes, saladas, diversos tipos de comidas estavam arrumadas sobre a mesa. Comidas que Ela havia começado a preparar no dia anterior. O relógio já marcava um pouco mais de 13h e ela continuava esperando os filhos para o almoço.

Ela se lembrou da filha mais velha e pensou que se aquela infeliz havia abandonado o filho para ficar na farra, por quê iria se lembrar que ela havia feito comida para um batalhão.
Novamente ela olhou para o relógio e viu que faltava poucos minutos para as 16h. Ela sabia que sua filha do meio apareceria junto com os três netos, pois "aquela morta de fome preguiçosa nunca perderia a oportunidade de comer de graça", pensou Ela.

Eram 19h, Vera já estava preparada para quando o seu filho caçula chegasse reclamando que a comida estava fria, ela iria mandar ele ir para a beira do fogão esquentar. Afinal ela não era empregada de ninguém, e já havia passado a vida inteira cozinhando para um bando de gente e agora queria descansar. E decidiu iria esperar somente mais meia hora e se ninguém aparecesse ela iria comer sozinha.

Ela já até pensava que era melhor mesmo ninguém aparecer pois com certeza depois de terem comido a comida dela ainda iriam pedir dinheiro, e ela sabia que isso aconteceria, imaginava ela franzindo a testa.

Dois dias depois o neto mais velho foi levar um recado da para Ela. Tocou o interfone e ninguém atendeu. A vizinha falou que faziam dois dias que as luzes ficavam acessas dia e noite, dois vizinhos que chegavam do serviço no momento resolveram, arrombar a porta, quando a porta veio abaixo todos puderam ver que ninguém havia aparecido para o almoço de Domingo, pois Ela continuava sentada no mesmo lugar onde passou todo o dia, na sua frente a comida do almoço ainda intacta.

O enterro foi no dia seguinte presentes somente os vizinhos, nenhum dos filhos ou netos compareceram, resolveram cumprir o último pedido d'Ela repetido durante anos: "não quero nenhum de vocês ou seus descendentes no meu enterro ou chorando por mim, quero morrer e ser enterrada sem a falsidade de vocês por perto".

No final, morreu como viveu: sozinha

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